top of page

Uma velha conhecida

Nos últimos três meses eu não me senti muito eu. O que é deveras estranho, se você me perguntar, porque nada específico aconteceu, sabe? Só parece que eu não era eu. A minha rotina era a mesma de sempre, mas eu me perdi ali no meio. Não foi nem entrar em modo automático, eu só não achava mais aquilo prazeroso sabe? E sabia disso. Sabia que tinha algo diferente, mas não sabia direito o que era. Algo parecia errado, mas, ao mesmo tempo, tudo estava relativamente normal. Mesma rotina. Mesmos afazeres. Será que era eu que tinha mudado?

Esse pensamento ecoou na minha mente durante uns dois meses. Eu comecei a dormir mais do que dormia. Comecei a comer mais do que comia. Faltei as atividades físicas. Eu vivia ansiosa. Não é um sentimento desconhecido para mim, eu sou, naturalmente, uma pessoa ansiosa. Anseio faz parte do meu ser desde que comecei a ansear pelas coisas. Ao longo de quase 16 anos de análise eu achava que já sabia lidar com ela, mas essa ansiedade chegou de um jeito diferente.

Eu não notei que era ela.

Ela chegou, se sentou e ali ficou. E durante dois meses eu não a reconheci. Como uma desconhecida e, ao mesmo tempo familiar, ela vivia como se conhecesse o lugar, e pior que conhecia mesmo. Demorou muito tempo para que eu conseguisse reconhecê-la.

Acho que aconteceu essa semana, essa semana eu olhei pro espelho e vi ela lá. Ansiedade pura. Nua. Crua. Uma ansiedade que me desesperava. Que me fez chorar como uma criança que vem ao mundo desconhecido. Me senti uma criança de novo. Foi a coisa mais estranha e interessante, ao mesmo tempo, que senti nos últimos anos.

Segunda-feira eu sentei e chorei como não chorava há um bom tempo. Chorei entre os meus. Chorei sozinha. E daí fiz o que eu me lembro que me ajudou em outros momentos. Coloquei o pé no chão. Saí do Instagram. Caminhei na praia e olhei as ondas do mar. Nisso decidi retomar algum senso de controle da minha vida. Voltei a ler de manhã. Voltei para minha prática de Ioga, que tantas outras vezes, me salvou de mim mesma.

Voltar é sempre o mais difícil, sabe? Acho que para tudo, mas sinto isso mais brutalmente na ioga. Talvez porque o tapetinho é um lugar já familiar, mas quem pratica sabe que, apesar de familiar, não é como andar de bicicleta. O corpo muda. Posturas que antes eram fáceis se tornam díficeis. Posturas antes impossíveis são realizadas com uma facilidade nunca antes vista. Eu sinto isso toda vez que retomo a prática, e retomo mais vezes do que eu gostaria, porque abandono mais vezes do que gostaria também.

Nunca é a mesma Victoria que pisa no tapete. Nunca é a mesma Victória que acorda de manhã.

Eu me perdi de mim nos últimos meses. Me perdi de mim tentando ser alguém que eu nunca fui. Tentando sem nem ver. Eu me perdi, mas me achei de novo, voltando a fazer coisas que me lembrem quem eu sou. O tapetinho é sempre o melhor lugar para me achar de novo.

No fim, eu acho o caminho de volta, não só porque é preciso, mas é porque é sempre bom voltar para casa.


Comentários


  • Instagram

Caderno da Vica

© 2025 by Vica.

Powered and secured by Wix

oie,

pode falar ::)

bottom of page