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O dilema do fã.


Sabe quando você tem um ritual que faz parte da sua vida e que ajudou a te moldar como pessoa? Pois é, eu tinha um ritual de todo ano reler os livros de Harry Potter. Eram meus livros favoritos, talvez, porque assim como muitos, eu cresci acompanhando os lançamentos dos livros, dos filmes. Eu visitei Hogwarts sem sair do meu quarto. Fui às aulas de defesa contra as artes das trevas, vi jogos de quadribol, admirei paisagens antes mesmo dos filmes nos possibilitarem realmente vê-las.

Durante minha infância eu não era exatamente cheia de amigos, mas gostava muito de passar as tardes de verão lendo, Harry Potter foi minha escolha em várias tardes de férias. Fazia contagem regressiva para o próximo lançamento, ia em sessões estréia à meia-noite, tinha uniforme, versões diferentes dos livros, Funkos. Grande parte de quem eu sou hoje foi moldada pelas palavras que eu li. Harry Potter me ensinou muito, muito mesmo. Me ensinou sobre amizade, lealdade, coragem, medo, e também me ensinou sobre fraqueza, maldade, influência.

Mas há algum tempo esse lugar que sempre foi um lugar seguro deixou de ser. A autora destruiu isso com infinitas frases preconceituosas. E com isso veio um sentimento muito estranho, por que como que a mulher que escreveu uma história que me ensinou tanto sobre empatia, ignorância e preconceitos infundados poderia ter virado essa pessoa que a cada dia fala mais asneira por aí. E desde então separar a arte da artista não é fácil. E esses dias andando em uma das livrarias que gosto de ir, encontrei esse livro, que é capa desse post, Monstros: O dilema do fã de Claire Dederer é um daqueles livros que não é a gente que encontra, ele que acha a gente, você provavelmente também tem um livro desse. Eu tenho alguns livros que me encontraram exatamente quando eu precisava lê-los, mas isso é para um próximo texto. De qualquer forma assim que eu li a contra-capa eu sabia que o livro tinha vindo em boa hora, o comprei imediatamente e quando cheguei em casa o devorei em poucos dias.

Dederer traz em seu livro exatamente o que eu estava vivendo com Harry Potter. Uma pesquisa minuciosa foi realizada, mas ela nos é apresentada em tom de conversa, durante toda a leitura eu senti Dederer me convidava a indagar ainda além de suas indagações. Não quero expor o teor do livro, porque realmente é meu intuito que você o leia, mas preciso trazer o ponto mais importante da leitura. O sentimento conflituoso de amarmos algo que foi realizado por alguém ruim. Como a autora mesmo traz: "Chamar alguém de monstro não resolvia o problema do que fazer com a obra”. E não resolve.

Mas enquanto eu lia as 380 páginas do livro de Dederer eu fiz as pazes com o fato de que uma parte de mim sempre vai amar Harry Potter, pois essa história também faz parte da minha história. Ela também existe além da autora, existe em mim e em tantos outros fãs. Não é possível apagar o impacto que a obra teve em mim.

Dederer nos traz isso num livro que vai muito além de artistas horríveis, ela nos traz o nosso ponto de vista, o ponto de vista dos fãs e nos ajuda a caminhar por esse caminho tortuoso.

Essa é a primeira, mas não será a última indicação de livros que teremos por aqui. O intuito sempre será trazer os livros que li, nem sempre serão livros que gostei, mas prometo que a leitura é sempre válida. Quem já me conhece sabe que eu não gosto de dar notas aos livros que leio, prefiro dizer o quanto gostei ou não do livro, porque livros, assim como muitas outras coisas, são deveras pessoais, mas esse livro é um daqueles livros que só consegui parar quando acabei e ainda o deixei na minha cabeceira durante um bom mês após o término, custei a guardá-lo porque não queria esquecê-lo antes de o indicar.

Nos falamos em breve, beijo



1 comentário


clararegina01
02 de mar.

Harry Potter me trouxe os mesmos questionamentos pelo mesmo motivo durante muito tempo! E eu notei que, com o passar dos anos, fui perdendo o encanto pela obra por conta da autora. Quando percebi isso achei muito triste, porque eu realmente amo esses personagens, são parte de quem eu sou de certa forma.


Fiquei curiosa com essa leitura! Vou atrás!

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oie,

pode falar ::)

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