Uma pausa necessária.
- Victoria Passos

- 4 de mai.
- 3 min de leitura
Na semana passada me obriguei a não publicar nada no Instagram. Não publiquei stories, não publiquei no feed, sendo bem honesta, nem pensei em conteúdos. Durante sete dias eu usei o celular para coisas triviais. A minha relação com o celular não é um problema novo, não é a primeira vez que estou escrevendo sobre ele, eu sei, me sinto numa reprise, mas talvez o problema não seja realmente ele. Nessa última semana eu quis pegá-lo infinitas vezes, até tentei contar quantas mas me vi, logo no primeiro dia, numa quantidade absurdas de tentativas.
Talvez a culpada seja eu. Eu sei que as redes sociais fazem isso. Nos viciam. Nos viciam em likes, comentários e nos fazem acreditar que aquilo ali é viver. Depois nos deixa pensando como que pode alguém fazer tanto num dia e a gente não. A vida de todo mundo parece perfeita aos olhos de quem somente vê, o ditado a grama do vizinho é sempre mais verde ainda é tão presente em nossas vidas, especialmente agora que qualquer um pode ser, figurativamente falando, seu vizinho. Em poucos cliques a gente acha qualquer pessoa, se reconhece em alguém, admira outrem e, muitas vezes, inveja alguém.
Quem diz que nunca sentiu uma pitada de inveja, mente muito bem. Veja bem, não é uma inveja maldosa, mas aquela vontade de também ter o que o outro aparenta ter.
Eu já senti isso mais vezes do que gostaria, especialmente nos dias em que tudo dá errado e eu me enfurnava no sofá, ligava a televisão, desnecessariamente, porque estava imersa no feed de pessoas que fizeram tudo perfeito o dia todo e, em meio ao dia perfeito, ainda conseguiram postar conteúdo sobre.
Nisso eu perdia sabe-se lá quanto tempo ali, absorvendo uma realidade que é distorcida, que raramente é, realmente, real. Ficava abismada admirando rotinas que são bem diferentes que a minha, mas queria fazer exatamente o que elas faziam. O que não é possível, primeiro porque eu não sou elas. Notei e não foi a primeira vez, por isso me obriguei a ficar uma semana sem me comparar com ninguém.
E não vai surpreender ninguém quando eu falar que foi realmente bom. Bom mesmo. Eu fiz tudo o que normalmente faço, mas me policiando para usar o celular o mínimo possível, nos dias atuais, né? Até entrei no Instagram algumas vezes, mas limitei o uso assim que me vi me comparando com alguém. Me policiei para não levar o celular no banheiro, não mexer nele enquanto conversava com outras pessoas e nem enquanto trabalhava. Quando mexia tentava buscar apenas o necessário.
O que eu tentei fazer, na verdade, foi recuperar o controle da situação. As redes sociais e seus estímulos sempre tentam nos prender nelas, modificando o algoritmo ao nosso gosto, mas a verdade é que, no final, a gente escolhe mexer no celular, porque nos acostumamos a isso. Porque o nosso corpo está habituado com a constante dopamina que é liberada enquanto estamos scrollando no feed infinito, mas é possível obtê-la de outras formas, formas mais saudáveis, duradouras e, acima de tudo, reais.
A vida não acontece dentro do feed, ela acontece muito fora. Ela é um caos desordenado. A vida tem de ruim tudo o que tem de bonita. A gente só precisa tirar o olho do feed para ver.
A escolha é toda nossa.



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