Onde eu sempre volto: os livros.
Atualizado: 1 de jan.
A leitura sempre esteve presente na minha vida, desde pequena, me lembro dos meus pais com diversos livros espalhados pela casa, uma lembrança muito vívida do meu pai deitado na rede com um livro na mão e da minha mãe na poltrona sempre lendo. Meus pais se separaram quando eu era bem pequena e me lembro das duas casas terem livros espalhados por todos os cantos. Livros de romance, livros sobre política, livros e mais livros em gavetas, armários e até no banheiro.
Não tenho dúvida do privilégio que é, no Brasil, ter pais que liam tanto. E como o exemplo arrasta desde pequena eu sempre li muito. Comecei com os gibis, que ocupam até hoje um lugar cativo no meu coração e nas minhas mãos. Depois fui começando a ler contos infantis e assim começou um relacionamento que perdura até hoje com a leitura. Quando eu era adolescente me lembro de virar madrugadas nas férias porque PRECISAVA descobrir o que acontecia. Devorava livros como quem devora uma comida caseira num domingo de chuva. Meu relacionamento com a leitura é, talvez, um dos relacionamentos mais duradouros da minha vida. E como todo relacionamento ele é feito de fases. Às vezes eu leio que nem lia quando era adolescente, devorando livros, e, outras vezes eu mal leio um livro por mês. Já tive mais ressacas literárias do que consigo me lembrar, mas o hábito sempre volta, porque eu gosto e porque me faz bem! É uma daquelas coisas que quando eu não faço eu sinto falta todos os dias.
E ler livros nunca foi sobre números para mim. Inclusive me incomoda um pouco falar sobre quantidade de leitura, rapidez de leitura, tudo relacionado ao tempo de ler me incomoda, porque a leitura não é sobre isso. É sobre muito mais. Eu compartilhei durante um ano alguns dos livros que lia durante o mês no Instagram, mas após um tempo comecei a notar que gerava um sentimento de comparação entre as pessoas, que começavam a se preocupar mais com a quantidade de livros do que com a felicidade de simplesmente lerem um livro que fosse. Parei de compartilhar as leituras, mas sei que também é importante falar sobre, então cá estou.
As dicas que darei a seguir são dicas de livros que já li em algum momento da minha vida, livros que me tocaram profundamente ou, simplesmente, me fizeram companhia em momentos em que eu só precisava não me sentir sozinha. Alguns deles também são livros mais leves, para ler numa ida à praia, numa noite com uma taça de vinho. Nem todos são livros premiados, inclusive acho que a maioria não é, nem todos eles vão uma grande crítica social, porque às vezes a gente só quer ler para esquecer o caos que tá lá fora. Ter um livro na bolsa é ter sempre outro lugar para se estar, sem viajar.
Espero que vocês gostem das indicações e espero que indiquem as leituras que vocês quiserem nos comentários, assim continuaremos aumentando nossa lista de livros a serem lidos, como há de ser!
12 livros para o próximo ano.
Janeiro é um mês que eu leio menos porque minha família vem visitar, os amigos estão de férias e eu trabalho normal, então gosto de pegar livros menores e mais fáceis de ler. Esse livro Modern Love conta várias histórias reais e é um livro bem tranquilo de ler, como são histórias verdadeiras você se conecta um pouco mais com a leitura e o negócio flui bem sabe? Parece que a gente se vê naquelas pessoas. E o bônus é que como são várias histórias independentes, você não precisa seguir a ordem natural do livro, o que eu acho incrível, honestamente.
Fevereiro: Rota 66 - A história da polícia que mata
Esse livro foi uma indicação da minha mãe e hoje é um livro que eu indico para todo mundo, primeiro porque a escrita do Caco Barcellos é ótima, direta e o levantamento de dados dele algo realmente fora da curva, e segundo porque acho importante que tenhamos bagagem para entender um pouco melhor o porquê das críticas à polícia. Nesse livro Caco denuncia crimes cometidos pelos policiais das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar - ROTA. O livro é fruto de uma pesquisa de sete anos de um trabalho investigativo ímpar realizado por Barcellos.
Março: A vida não é justa
Para março, separei esse livro que foi o primeiro da Andrea Pacha que li, mas não foi o último. Andréa Pachá atuou mais de 20 anos na Vara da Família e trouxe toda sua bagagem como juíza para as páginas, uma maestrina com as palavras e cheia de humanidade, ela nos faz acreditar em uma justiça que leva em consideração as pessoas que ali estão. O livro é uma delícia de ser lido, são várias crônicas sobre casos reais. Um livro com muitas frases para sublinhar e guardar na mente.
Eu sou sedenta por conhecer mais sobre a história do Brasil, mas admito que tenho um hiperfoco na época da ditadura porque sempre me indigna, mas ainda assim me vejo lendo livros sobre essa época porque é importante conhecer nossa história. Esse livro é um tiro no estômago, uma pedra no sapato e admito que precisei parar a leitura várias vezes porque me irritava profundamente. Um livro denso, fruto de uma pesquisa extensa e deveras necessário. O livro traz um pouco do papel da ditadura brasileira no golpe no Chile, a intervenção brasileira não foi por acaso, e até os Estados Unidos - como sempre - tem culpa nessa história. É um livro grosso, mas para ser lido com atenção e indignação.
Maio: BTK: Meu Pai
Eu consumo muita coisa relacionada a crimes, assassinos em série desde meus 15 anos, acho que tem a ver com a quantidade de séries que assisti no Universal Channel, mas sempre quando eu assistia algo, ou lia algo, eu sempre ficava pensando na família que essas pessoas tinham, porque normalmente eles têm. Quando saiu o livro da Kerri Rawson eu comprei na mesma hora porque agora eu iria ler a perspectiva de alguém que conviveu com um dos maiores assassinos em série que o mundo já viu. O livro é, como podem imaginar, muito triste, porque Kerri carrega um peso enorme em amar um homem como BTK, mas para ela, ele foi, na maior parte da sua vida, seu pai. Para quem é acostumado com esse tipo de leitura é um livro fácil de ler, você fica meio preso nele porque se compadece com a história dela e a dor que ela sente é tangível pelas páginas.
Junho: Menina boa, menina má
Esse livro é um negócio que é até difícil de explicar. Annie, a filha de uma assassina em série, acaba denunciando sua mãe para polícia, assim começa a história. O livro traz a história do preparo de Annie para enfrentar sua mãe no tribunal e também o seu recomeço. Esse foi um dos livros que virei a noite lendo, uma leitura intensa de arrepiar e é aquele tipo de livro que você termina e fica pensando se entendeu o final. É um suspense muito bem escrito e vale super estar na sua lista de leituras.
Eu sou a prova viva de que terapia é algo que muda vidas, mas também não falo muito sobre isso, talvez devesse falar mais. Eu fiz psicanálise durante alguns anos, mesmo depois que parei de fazer semanalmente eu continuo recorrendo ao meu terapeuta em momentos em que sinto que não consigo lidar. Esse livro de uma terapeuta que busca a terapia após um conselho de uma amiga de que ela precisava conversar com alguém e ela nos entrega histórias riquíssimas sobre sentimentos, sobre nossos anseios e nossas vidas. É um livro que te traz um pouco de paz em saber que até quem nos ajuda a lidar com as incertezas da vida também não sabe como lidar com as suas, muitas vezes. Um livro muito gostoso de ler, mas que traz muitos ensinamentos se você prestar atenção.
Agosto: As palavras de Saramago
Quem me conhece há algum tempo já sabe que Saramago sempre será meu escritor favorito. Eu até acho engraçado isso, porque quando eu li Saramago pela primeira vez eu achei confuso demais e eu não sou muito de gostar de coisas confusas, mas no fim foi naquela forma de escrita que achei o meu autor favorito. O livro que indico hoje não é dele, mas é uma coletânea das suas declarações sobre os mais variados temas. É um livro sobre seus pensamentos, seus ideais e sua vida. É ótimo ler Saramago, mas é ainda melhor ler os pensamentos dele!
Para setembro escolhi um livro lido pelo aniversariante do mês e me indicado por ele também, meu marido. Um fato engraçado é que antes da gente começar a namorar eu olhava esse tipo de livro e achava que era meio autoajuda e acabava nunca lendo, bem julgando o livro pela capa... coisa feia, né? Pois é, mas daí Yan entrou na minha vida e ele lia muito esse tipo de livro, então eu fui ler e gostei bastante! Esse livro trata sobre repensar algumas certezas que temos em nossa mente e a importância de dialogar com pessoas que têm pensamentos diversos dos nossos. É um livro crucial para o momento que vivemos. Eu gosto da forma que Adam Grant escreve e no final do livro ele traz dicas práticas para aplicar o conteúdo do livro em sua vida. Apesar de ser super bem fundamentado, a leitura não é difícil, inclusive é bem fluída.
Às vezes parece que a gente nunca vai entender quem acredita em fake news né? Eu sei, mas depois que li esse livro eu vi que a forma de combater fake news não é negando fortemente o que a pessoa está dizendo, às vezes você só precisa escutar sem julgar, para que a pessoa não entre em modo defesa e ignore tudo o que você fala. Às vezes leva tempo. E esse livro é sobre não perder a esperança de dias melhores, de uma forma. Eu li esse livro porque não entrava na minha cabeça algumas coisas e eu queria entender melhor o que se passava na cabeça daqueles que acreditam. Foi uma leitura que no começo me deu muita raiva, mas no meio notei que existem várias circunstâncias que propiciam que pessoas racionais acreditem nessas coisas, realmente pode acontecer com qualquer um. Uma baita leitura!
Novembro: A verdade sobre o caso Harry Quebert
Para meu mês de aniversário trouxe um livro que me marcou muito. Vi esse livro de Jöel Dicker na casa da minha querida tia Claudia e ela prontamente me deu o livro para ler. Foi paixão à primeira página. Me agarrei nesse livro como uma criança pequena agarra sua mãe depois de um pesadelo. Eu estava há um tempo sem ler, e essa história me prendeu demais. Um escritor recorre ao seu amigo e ex-professor para lhe ajudar a escrever seu novo livro, porém é surpreendido quando encontram o corpo de uma menina no jardim da casa de Harry Quebert. O livro tem vários mistérios e o leitor vai se envolvendo na história de uma forma muito natural. Há uma crítica velada para um clássico da literatura, mas vou deixar você descobrir sozinha.
Termino minhas indicações com um livro polêmico e não o faço levianamente. Se você leu o livro de setembro estará, com certeza, com a mente mais aberta a ler coisas que vão contra o que você acredita e talvez, lendo esse livro, entenda melhor que o aborto não é uma questão que deveria ser debatida por causa de crenças religiosas. Nesse estudo que durou dez anos Diana Foster e sua equipe acompanharam cerca de dez mil mulheres que procuraram uma clínica de aborto para interromper uma gravidez, algumas conseguiram, outras não, mas durante dez anos elas mantiveram contato com entrevistas periódicas sobre suas vidas. O estudo refuta a ideia de que abortar causa depressão, remorso ou riscos à saúde. É muito interessante ver como uma escolha afetou a vida de cada pessoa. Um livro para ler e lembrar que se homens engravidassem o aborto seria liberado em qualquer país do mundo.
Com isso finalizo minhas dicas de leitura para 2026. Espero que você leia com atenção, com vontade e com verdade, que suas leituras se tornem um refúgio quando precisar, um abraço apertado e um lugar calmo e tranquilo. Que as suas próximas leituras abram sua mente, te façam questionar coisas ou só te arranquem belas risadas! Que seja um ano de muitas palavras lidas diariamente e menos rolagem de telas.
Nos falamos em breve, um beijo





Olá Vica, quero lhe agradecer por compartilhar esse conteúdo enriquecedor, um verdadeiro guia para voltar a um hábito tão importante! Vida longa ao Caderno da Vica, tão necessário 👐
Oi Vica, feliz ano novo! amei as indicações. Se permitir, vou dar uma sugestão já que voce tem tanto interesse no assunto e certeza possui vários livros para indicar: uma lista com livros sobre a história do Brasil. Sou tão fascinada quanto você mas sempre tenho dificuldade de encontrar alguém para indicar. De qualquer forma, já peguei algumas indicações desse post, obrigadaa!
Oi Vica! Feliz ano novo!
Adorei suas indicações de leitura e já aumentei minha lista por aqui! Já caí muito nessa questão de números também, de ver pessoas que leram 50 livros no ano e eu achar que meus 10, 12, 15 não tinham valido a pena, mas óbvio que valeram! Sou do pensamento de que um livro lido é uma mudança que te gera, independente do título do livro. Qualquer leitura é valida!