Em 2016 eu era exatamente quem eu precisava ser.
- Victoria Passos

- 22 de jan.
- 3 min de leitura
Esse texto tá nos meus rascunhos desde o final de semana passado, mas eu ainda achava que faltava alguma coisa para que ele pudesse vir à tona, sabe? Há dez anos eu era uma pessoa completamente diferente e, ao mesmo tempo, muito de quem eu sou hoje é por causa de quem eu era naquele instante. Muito louco pensar isso, mas as decisões que tomei quando era uma adolescente me trouxeram, de certa forma, até minha persona adulta que escreve nesse computador hoje.
2016 foi um ano difícil, eu tomei um belíssimo pé na bunda. Daqueles de cinema mesmo. Mensagem de texto. Dias na cama. Brigadeiro e mais brigadeiro. Chororô e filmes de comédia romântica na televisão. E naquele ano, naquele momento, eu pensava que era terrível tudo aquilo, que eu não desejaria nem ao meu pior inimigo sentir tudo o que eu sentia. Eu era nova, não entendia quase nada da vida ainda, mas eu sentia muito. Se você, que está lendo isso hoje, me conheceu naquela época vai se lembrar de como eu sentia, como eu sofria, como eu expunha absolutamente tudo isso para todo mundo ver.
Eu repetia uma frase constantemente: - Eu sangro aqui.
E eu sangrava meio, entre as palavras escritas eu sentia cada pedaço do meu coração sendo estraçalhado. Me perguntava por que eu precisava passar por aquilo. Por que alguém resolver ir embora da vida da gente doía tanto? Eu me fazia todos os tipos de perguntas, fazia tantas perguntas e obtinha quase que nenhuma resposta que me satisfazia.
Foi aí que decidi voltar para psicanálise. Sentada na cadeira do escritório do meu psicanalista enquanto eu pensava o que dizer. Me lembro até hoje da primeira sessão em que eu só conseguia chorar, assoar meu nariz e soluçar. Eu jurava que eu estava ali devido ao dito cujo que terminou comigo, mas a verdade é que eu estava ali por causa de mim. Hoje eu vejo com uma clareza absurda. Eu precisava estar ali por mim. Para mim.
Durante meses eu levava as sessões de análise como quem aprende a nadar. Primeiro o pé, depois as canelas, depois um pouco mais de perna, depois a barriga, e assim foi indo, e eu já tinha feito psicanálise antes. Essas águas não me eram estranhas. Mas foi em 2016 que mergulhei fundo no processo. De cabeça e alma mesmo.
Eu sempre falo que não tem nada de confortável na psicanálise que fiz. Foi doloroso, foi cruel, foi difícil, foi terrível, foi horroroso. No final de cada sessão eu jurava que nunca mais pisaria lá, mas eu sempre voltava. Voltava porque sabia que era necessário mudar. Durante muito tempo eu me isentei das situações que me aconteciam. Culpei os outros, especialmente no término, mas foi entre as quatro paredes do consultório que vi que muita culpa era minha.
Tem algo muito bonito em olhar para si, ver todos seus defeitos, reconhecê-los, abracá-los e, acima de tudo, agradecê-los. E durante anos foi isso que fiz sentada na cadeira da psicanálise. E foi só por isso que em 2026 eu posso viver a vida que vivo hoje. Se eu não tivesse voltado às sessões, eu nunca teria casado com meu marido. Nós sequer teríamos namorado. Se eu não tivesse voltado a contragosto para sala branca, com o sofá azul e a mesinha de canto, eu não teria sido forte o suficiente para dar adeus a pessoas que não me faziam bem.
Todas as decisões que tomei no ano de 2016 formaram o caminho, um lindo caminho, que me trouxe até quem eu sou hoje, que não é a mesma pessoa, por óbvio, mas muito de mim é feito dela. De quem eu era. De quem eu fui e de quem eu deveria realmente ser naquele momento.
Eu digo que eu sou um emaranhado das pessoas que fizeram parte da minha história e isso não deixa de ser verdade, mas eu sou, muito mais, um emaranhado de todas as pessoas que fui antes de ser quem eu sou e, todas elas, era necessário eu ser.

Nos falamos em breve, beijo




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