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Eu sangro aqui.

Hoje um amigo meu de longa data me disse que leu um dos meus textos. Na hora achei que ele fosse falar que gostou, ou que odiou, mas imaginem a minha surpresa quando ele me disse pra parar de escrever. Ele me disse que provavelmente a pessoa sobre quem eu escrevo lê os textos e, portanto, fica ruim para mim, pois ele percebe que eu ainda o amo.

Eu entendo o lado do meu amigo. É ruim ler a dor dos outros. Se é ruim pro meu amigo ler, imagina como que eu fico sentindo tudo isso? Às vezes é enlouquecedor. Daí eu venho aqui e escrevo. E não vejo motivo para deixar isso no privado. Nunca liguei em sentir. Eu sempre fui muito direta, e acima de tudo, muito honesta. Especialmente comigo. E principalmente com meu ex. Ele sempre soube que ao acabar comigo ele podia virar (e às vezes eu penso muito nisso) o assunto principal de um livro.

Afinal eu sempre amei quem escreve sobre amores que deram errado. Não me levem a mal, eu amo histórias felizes. Amo saber de casais que se conheceram na escola e estão casados há 20, 30, 40 anos. Mas, ao mesmo tempo, eu, eterna apaixonada pelas coisas que não dão certo, sempre amei ler textos que me mostravam que eu não estava só. Que a minha dor não era única no mundo. Sempre que eu sinto que não vou superar esse amor eu leio, ou escrevo. Às vezes escuto Elis Regina ou Caetano, outra vezes escuto um sertanejo com o coração na mão. Mas normalmente eu escrevo. Sabe por qual motivo eu escrevo? Porque outras pessoas passarão por tudo o que eu passo agora. E talvez quando elas passem por isso elas leiam meus textos, e talvez elas consigam dividir um pouco o peso comigo. Porque às vezes a gente se fecha no quarto fingindo que tá tudo bem, que estamos cansadas, que só queremos ver uma série ou um filme, mas, na verdade a gente sente o choro vindo, lá do fundo do corpo. Uma vontade enorme de pegar o carro, bater na porta da pessoa amada e falar "Por que não eu? Por que não sou para você quem você é para mim?" Mas a gente não faz. Eu pelo menos nunca fiz.

Muito pelo contrário, todas às vezes (e foram muitas vezes) que eu senti que a dor não cabia em mim, eu escrevia. Porque um autor, que por sinal eu tenho uma grande admiração, me disse um dia que a gente sangra junto. Então eu sangro aqui. Com palavras. Eu abro minha ferida enorme e tento mostrar que, realmente, dói. Dói muito. E às vezes parece que nunca mais vai parar de doer. Mas é uma dor antiga, todo mundo já passou por isso. Muita gente ainda vai passar.

E por fim, como diz meu autor favorito, a gente sangra. Mas pelo menos a gente sangra junto.

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oie,

pode falar ::)

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